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O Café no Vale do Paraíba

No final do século XVIII, o café acompanhando o “caminho novo” aberto da Vila de Nossa Senhora da Piedade de Lorena até a cidade do Rio de Janeiro, chegava ao município de Sant’Anna das Areias, transformando a paisagem geográfica, econômica e humana do Vale do Paraíba paulista. Em alguns municípios, o café substituiu rapidamente a cana-de-açúcar, enquanto que em Lorena, Guaratinguetá e Pindamonhangaba encontrou maior resistência por parte dos “senhores de engenho”.

Caminhando rapidamente, o café em 1836, dominava a economia valeparaibana, sendo exportado nesse ano pelo portos de Paraty, Mambucaba, Ubatuba e São Sebastião, Ariró e Jurumirim, 510.000 arrobas de café contra 8.000 arrobas de açúcar. O período áureo da produção cafeeira no Vale do Paraíba ocorreu na década 1850/1860. No ano de 1854, a produção anual de café do Vale do Paraíba foi de 2.730.000 arrobas, e o município de Bananal, sozinho, exportou neste ano a impressionante cifra de 554.000 arrobas.

O café transformou o vale paulista na principal região econômica da Província de São Paulo na mais importante região econômica e política do Brasil-Império. A paisagem rural sofreu uma violenta transformação, derrubando-se a floresta nativa e os cafezais, esparramando-se pelos morros e vales. Fez surgir as casas-grandes, as senzalas, as tulhas construídas em taipa de pilão, os terreiros de pedra batida para secar grãos de café, os carros de bois, as tropas de burros, as casas de máquinas para beneficiar o café. Posseiros derrubavam as matas e abriam as lavouras, lançando as primeiras sementes e alguns anos depois, começavam a colher os primeiros frutos. Famílias mineiras deslocaram-se do planalto com seus bens e escravos para ocupar as terras que marginavam o “caminho novo”. Fizeram nascer e florescer as grandes fazendas e as poderosas oligarquias, enobrecidas pelo Imperador, dominando as câmaras municipais, as irmandades religiosas e projetando-se no cenário político e social do Império.

Vassouras, Valença, Três Rios, Paraíba do Sul, Resende, Pirai, Barra Mansa, Bananal, São José do Barreiro, Areias, Silveiras, nasceram e cresceram em torno das fazendas produtoras de café e à sombra dos fazendeiros e dos “barões de café”. As casas-grandes dominavam a paisagem, imponentes, assobradas, com dezenas de janelas, portas, alcovas, salões, corredores, pátios e cozinhas. E os nomes iam assinalando a posse efetiva da terra: Boa Vista, Bela Aurora, Cordeiro, Cascata, Catadupa, Bom Retiro, Vista Alegre, Morro Vermelho, Pau D’Alho, Pinheiro, Paiol, Bom Jardim, Sant’Anna, Regato, São Miguel, Resgate, Loanda, Fortaleza, Rialto, Coqueiros, Itaguaçu, Veloso, Borba, Barra, Cascatinha, Grama, Boa Esperanças, Pedras, Cataguá, Barreiro, Bonfim, Rio Mando, Restauração, Sertão. Os viajantes estrangeiros atravessaram o Vale do Paraíba no século passado testemunharam em suas obras o esplendor dos fazendeiros de café e a magnificência das suas casas-grandes e solares. Dos engenhos fluminenses e das fazenas mineiras, a arquitetura das casas rurais do café no Vale do Paraíba herdou a sua implantação em dois níveis, assobradada. A base das casas era de pedra e as paredes externas de “taipa de pilão”, as internas de “pau-a-pique” ou “taipa de sopapo”, ou de “mão”. Os terreiros de café harmonizavam-se com a arquitetura exercendo uma função utilitária (secagem do café) e arquitetônica (complemento, embasamento ou prolongamento do conjunto). Na medida que o café enriquecia o fazendeiro, as casas antigas eram derrubadas ou modificadas e ampliadas, enobrecendo-se em detalhes:

sacadas de ferro, alpendres, colunas de granito, madeira ou ferro, forros de tábua decorados, pintados e frisados a ouro, lustres de cristais importados da Boêmia, armários imensos, embutidos para guardar os aparelhos de porcelana francesa ou inglesa, os cristais, as compoteiras e os vinhos finos, janelas de guilhotina com desenhos e arabescos, soalhos de pinho de Riga, escadarias de pedra e mármore, sótãos, capelas internas ricamente decoradas com entalhes, castiçais e imagens de madeira, douradas a ouro, salões imensos, cozinhas de conventos medievais, com fornos, fogões, despensas, pilões, tinas d’água, panelões de ferro, gamelas, adegas, depósitos de lenhas, viveres e comestíveis diversos. Ao atingir o alto Paraíba, a arquitetura do café encontrou a “taipa de pilão” solidamente plantada. As casas-grandes eram construídas em lugares aprazíveis rodeadas de morros, riachos, formando quadriláteros, com capelas, terreiros, tulhas, muros de taipa ou de pedra e as senzalas. Exigiu obras de nivelamento ou aterro – os muros de pedras exerceram a dupla função de arrimo e decoração, harmonizando o terreiro com a casa grande. Os forros e as paredes das salas, decoradas com painéis e pinturas de caça, bosques e jardins, paisagens europeias e mitológicas, testemunham o gosto e a disposição dos “barões de café” em transformar suas residências em lugares aprazíveis, belos e confortáveis. As pinturas dos painéis nas salas de visitas, corredores, capelas e salas de jantar foram executadas por pintores espanhóis, franceses e italianos, Em geral, apresentavam modelos clássicos ou renascentistas: colunas, frisos, frontões, guirlandas, cascatas, bosques, fontes, riachos, pássaros, flores e borboletas. Araras e tucanos, saracuras e seriemas, leões e gazelas, macacos, lebres, rolas, sabiás se confundem nas paisagens bucólicas, quebrando a monotonia das casas e fazendo sonhar as crianças, mucamas e sinhazinhas. Em outros painéis aparecem frutas, troféus de caça, verdadeiras naturezas mortas transplantadas para as paredes e colunas das casas senhoriais. Em alguns, o café é retratado e cultuado, e em outros, o próprio retrato da casa-grande testemunha muda de um passado eloquente. Na fazenda Rialto, em Bananal, a reprodução da estação da estrada de ferro de Bananal, com uma locomotiva e vagões assinalando o progresso da região.

Escravidão e aumento da população caracterizavam a evolução da economia cafeeira no Vale do Paraíba. Em 1836, a população valeparaibana era constituída de 105.679 habitantes (a região mais populosa da Província) e em 1854, ela crescera para 146.055 habitantes. Em 1886, a população atingiu a cifra de 338.537 habitantes. Com o aumento da produção de café, cresce a mão-de-obra escrava (principal investimento da economia cafeeira) e, quando a Lei “Eusébio de Queiroz” aprovada pelo Parlamento Imperial em 4 de setembro de 1850, impedindo a entrada de escravos africanos nos portos brasileiros, os fazendeiros valeparaibanos começaram a comprar escravos nos engenhos decadentes do nordeste, criando um tráfico interno. Em 1888, Abolição da Escravatura no Brasil, 75% da mão-de-obra escrava existente no Império (aproximadamente 150.000 escravos), estava nas fazendas de café do Vale do Paraíba fluminense e paulista. Nos inventários e testemunhos dos fazendeiros de café, os escravos representavam o patrimônio maior, acima do valor das terras e cafezais. A cultura do café multiplicou as povoações, vilas e cidades na região valeparaibana: Lagoinha, Jambeiro, Queluz, Lavrinhas, Pinheiros, Jataí, Roseira, Bonfim, Redenção da Serra, Guararema e Cruzeiro. A Estrada de Ferro Dom Pedro II, inaugurada em 1877, ligando o Rio de Janeiro a São Paulo, modificando os hábitos e os costumes da população e “civilizando” a sociedade valeparaibana, através dos jornais e revistas, modas, usos, teatros, colégios e dos contatos mais frequentes com a Corte, a Rua do Ouvidor, a sociedade aristocratizada do Segundo Reinado. Fazendeiros e comerciantes construíram palacetes, sobrados e casas com inúmeras janelas, sacadas, largos portais, por onde transitavam brancos e pardos, livres e escravos, nobres e plebeus.

Emílio Augusto Zaluar, viajando pelo Vale do Paraíba em 1860, descreve em seu livro “Peregrinação pela Província de São Paulo”, o luxo e a opulência da aristocracia rural valeparaibana. Reflexo da riqueza produzida pelo café, as cidades valeparaibanas passam por um rápido processo de crescimento e urbanização a partir de 1850: ruas, calçadas, iluminadas, mercados, chafarizes, teatros, colégios religiosos para meninos e meninas, colégios particulares, aulas de francês, etiqueta e dança, jornais, cemitérios com túmulos de mármore de Carrara, santas casas de misericórdia, asilos, grêmios literários, clubes recreativos, bandas de música, festas religiosas, com pregadores orquestras vindos da Corte, navegação a vapor no Rio Paraíba, ligando Jacareí a Cachoeira Paulista, transportando café, mercadorias e passageiros.

A partir de 1870, o café na região do Vale do Paraíba começa a apresentar sinais de decadência. As causas foram múltiplas e se acentuaram a partir de 1880: o esgotamento progressivo das terras, ausência de técnicas modernas para o cultivo do café, a erosão acentuada nas áreas mais antigas, o endividamento crescente dos proprietários rurais, a concorrência das novas áreas produtoras (oeste paulista), as leis abolicionistas, a mentalidade conservadora e pródiga dos fazendeiros. Os gastos com a administração da propriedade exigiam a presença do fazendeiro em suas térrea, fazendo com que ele não participasse diretamente do comércio exportador do café, entregando-o aos comissários nas cidades e nos portos de Angra dos Reis, Paraty, Ubatuba, São Sebastião e Rio de Janeiro. As novas áreas produtoras, no oeste paulista, se desenvolviam com rapidez, pois o café era cultivado em áreas planas, terras roxas, utilizando a mão-de-obra livre (imigrante italiano) e contando com uma rede ferroviária que facilitava o escoamento da produção até o porto de Santos. Mesmo assim, o café no Vale do Paraíba resiste até a década de 1930. Em alguns municípios, a crise foi lenta, em outros, rápida e decisiva.

A partir de 1930, a economia e a paisagem humana e econômica do Vale do Paraíba começa a passar por um processo de mudança: a pecuária leiteira, a ocupação das várzeas do Paraíba, a transformação urbana e cultural das cidades, as primeiras tentativas de industrialização modificam as estruturas da região.


José Luiz Pasin - Fundador do Instituto de Estudos Valeparaibanos. Professor, historiador, ambientalista e escritor com obras publicadas nas áreas de história, genealogia e literatura. Foi pesquisador no Núcleo de Pesquisa Regional da Unisal e nas Faculdades Integradas, membro da Academia Paulista de História, e passou pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Colégio Brasileiro de Genealogia, Instituto Histórico e Artístico de Paraty, Instituto Genealógico Brasileiro, União Brasileira de Escritores, e do Corem- Conselho Regional de Museologia do Estado de São Paulo. Dedicou a vida a movimentos culturais e ambientalistas do Vale do Paraíba.

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Com sede na cidade de Lorena (SP), o Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV) é uma associação sem fins econômicos, de caráter cultural, com atuação voltada ao desenvolvimento harmônico do Vale do Paraíba e à preservação de seu patrimônio histórico, cultural e ambiental. Fundado em 1973, o IEV atua em diferentes frentes, promovendo cursos, palestras, conferências, seminários, simpósios, debates e premiações, entre outros projetos, com o objetivo de estudar a realidade vale-paraibana e incentivar a produção e a pesquisa sobre o Vale do Paraíba.

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