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O Papel do Historiador...

Quando terminei de pesquisar (e escrever) o livro “O Marquês de Paraná” (um calhamaço de quase 800 páginas), no mote de seu último capítulo – “O Marquês e a Morte” – fiquei tentado a escrever sobre as questões de saúde do Brasil sob um olhar mais histórico.


Convivendo com expressões até mesmo porque sou da área de Saúde (não sou historiador) pude encarar o desafio de reunir figuras ilustres do passado – Oswaldo Cruz, Adolpho Lutz, Carlos Chagas, Emílio Ribas e Vital Brazil – e contar inúmeras histórias que envolveram a vida e as ações destes senhores.


Os denominei no livro como – “Os Cavaleiros do Apocalipse” – em uma alusão clara a outo livro de quase homônimo título (“Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse” de Blasco Ibañez) com uma única intenção. Em busca da verdade...


Assim, Oswaldo Cruz, o gênio que um dia conseguiu debelar a febre amarela (essa mesma que recentes presidentes fizeram a mesma reviver...) na tentativa de alterar o senso comum de que a comunidade internacional expressava sobre o Brasil, e otimamente definido por Miguel Pereira – “vasto hospital” – foi o mesmo que pleiteou vaga na Academia Brasileira de Letras, embora nunca tivesse escrito nada literário, e ao contrário, toda sua obra fosse mais acadêmica!


Pior, derrotou um poeta “de ofício” – Emílio de Menezes. Que só perdeu porque era obeso, desbocado, espirituoso, chistoso e... corria a boca miúda que Machado de Assis (sim... ele também fazia política...) não lhe morria de amores. Mesmo que Machado tenha morrido em 1909, e a eleição de Oswaldo Cruz acontecesse em 1916, havia um “guardião” pronto a dificultar a carreira de Emílio Meneses – o Prof. Afrânio Peixoto.


Este era médico, membro da Academia Brasileira de Letras, e também... sorrateiro... que o diga Carlos Chagas!


Afrânio Peixoto – professor da Faculdade de Medicina – era inimigo figadal de Carlos Chagas. Motivo? Simples... inveja pura!


Para quem não sabe, Carlos Chagas foi designado um dia para ir até a região de Lassance (MG). Muitos operários sofriam com a malária e o prolongamento da estrada de ferro estava com enormes dificuldades para sua execução. O ano era o de 1907. Em vagões improvisou um laboratório. Ali se deparou com o barbeiro... Começa ali sua história...


O inseto era um intermediário de um grande mal – o mal de Chagas! Todo o processo da doença foi desvendado ao longo do ano de 1909. Assim, “beirando os 30 anos” tornou-se celebridade internacional, pois conseguiu identificar o agente etiológico (causador da doença), sua biologia no hospedeiro invertebrado (o barbeiro...) e vertebrado (os macacos...), seus reservatórios e diversos aspectos da patogenia e sintomatologia da doença. Claro, veio o sucesso!


Foi assim, formalmente indicado ao Prêmio Nobel de Medicina em duas oportunidades. A primeira, por Pirajá da Silva (descobridor do Schistossoma mansoni o causador da popular “barriga d’água”) que o indicou à láurea de 1912 (ganho por Alexis Carrel). Aqui cabe a desculpa de que a descoberta de Chagas era recente e pouco ainda difundida no meio científico.


Então, em 1920, Hilário de Gouveia o indicou novamente, mas as entidades brasileiras boicotaram abertamente. Afrânio Peixoto (e Parreiras Horta, Henrique de Aragão, Figueiredo de Vasconcellos do então IOC – Instituto Oswaldo Cruz) entrou em cena afirmando que a doença não era importante, minimizando a descoberta e buscando contextualizá-la como de magnitude geográfica e regionalizada (pois é apenas o custo da implantação de marca-passos e cirurgias por megavísceras teria sido de US$ 250 milhões no ano de 1987, enquanto por absenteísmo laboral somaria US$ 625 milhões); depois, em um lance de maior maldade alfinetaram que e m verdade a descoberta foi de Oswaldo Cruz e não de Carlos Chagas.


Houve um longo processo no período e ao fim, Carlos Chagas conseguiu comprovar que a descoberta era realmente dele. Até o filho de Oswaldo Cruz (falecido em 1917) testemunhou a seu favor.


Nada adiantou. A polêmica inviabilizou a premiação. O caso é tão emblemático e único na história da premiação do Nobel de Medicina, que em 1921 (Carlos Chagas era barbada) ficou registrado o “não acontecimento”, e ninguém recebeu o prêmio!             Não pense que Carlos Chagas era um anjo. Ninguém o é! Bem que ele tentou a Academia Brasileira de Letras (e logo desistiu) a par de nunca ter escrito nada literário! Ah, a vaidade...


Enfim, estudar com afinco história permite o conhecimento de que por trás da história oficial, há sempre uma não publicada história, às vezes mesmo mais rica de fatos, mesmo que os mesmos não sejam aquilo que gostaríamos de saber sobre nossos “velhos” heróis.


Nesta hora, sempre nos lembramos de Joaquim Nabuco que afirmava que nossos heróis não possuem sombras...


No livro – “Os Cavaleiros do Apocalipse” – a ser lançado em breve, estes fatos anteriormente relatados e muitos outros mais circundantes a vida e as ações de antigos pesquisadores na área da então “Medicina Tropical” serão abordados.


Afinal, mesmo não sendo historiador, cumprimos desta forma o salutar desejo de que algumas histórias não podem ser esquecidas, ou este deve ser o objetivo dos verdadeiros historiadores?


Eduardo César Werneck


Especialista, mestre e doutor em Ortodontia. Acadêmico Titular da AcBO (Academia Brasileira de Odontologia). Presidente da ACLA (Academia Cruzeirense de Letras e Artes). Membro do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos).




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