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O privilégio de conhecer a Fazenda Pau d’Alho

Atualizado: Out 9

Fotografia: Bocaina Experience


No dia 27 de julho de 2019, tive o privilégio de conhecer a Fazenda Pau d’Alho, localizada na pequena cidade São José do Barreiro, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. A visita foi guiada pela historiadora Tatiane e integrava ao XXXI Simpósio de História do Vale do Paraíba, organizado pelo Instituto de Estudos Valeparaibanos. Uma experiência engrandecedora e inesquecível.


Mas antes de aprofundarmos sobre a fazenda, é necessário destacar o show à parte da paisagem que abrange toda a rota até o nosso destino. A Rodovia dos Tropeiros, estrada que percorre a maior parte do nosso percurso, é dominada pelo Parque Nacional da Serra da Bocaina, uma paisagem cheia de montanhas e predominada pelo verde. O cenário é indescritível e traz surpresas a cada curva, com uma natureza plena e serena.


Após 1h20 de viagem, saindo de Lorena, chegamos na Fazenda Pau d’Alho. Os seus muros altos e portões enormes de madeira nos fazem questionar se seu único foco realmente foi a produção de café, ou se tinha alguma função militar, já que sua estrutura se assemelha a um forte. Pau d’Alho foi construída por volta de 1817 nas sesmarias pertencente à família Ferreira de Souza, e leva esse nome por ter várias árvores pau d’alho (Gallesia integrifolia), a qual tem um aroma idêntico ao de alho.


Ao adentrarmos na propriedade, vemos logo de cara a construção que simula a senzala, pois a original foi destruída com o fim da escravidão. Essa estrutura está localizada na parte mais alta do terreno, em posição de destaque, uma característica incomum para as fazendas de café da época. A explicação para essa particularidade seria que os escravos deveriam ficar em lugares mais arejados e secos, para que não ficassem doentes, por serem um investimento mercadológico da cafeicultura, e escravos doentes significavam perda de dinheiro. No caso da Pau d’alho, a região mais elevada do terreno tinha essas características. Outro fator importante destacar é que a propriedade não era de uso continuo da família de João Ferreira de Souza, apenas para negócios e ocasiões importantes, fazendo com que o fato da senzala estar em destaque, ao invés da casa grande, não afetasse à hierarquia social vigente no período colonial.


Além disso, as paredes da parte inferior da fazendo foram feitas por um sistema chamado de encilhamento de pedra, que impedia que a umidade chegasse até ao armazém onde ficavam os grãos de café. Faziam uma massa composta por barro, sangue e estrume de animais para que houvesse liga e força para estruturar as pedras uma em cima da outra.


Além disso, visitamos a Grande Boca do Inferno, cômodo onde se localiza uma grande roda d’agua responsável por mover os pilões de beneficiamento de café. Esse nome foi dado pelos próprios escravos da propriedade, por causa do intenso e interrupto barulho que era feito pela roda, ecoando em todo o terreno.


A Fazenda Pau d’Alho, portanto, deixou de ser apenas uma fazenda e se tornou um grande patrimônio histórico no Vale do Paraíba. Algumas dessas descrições feitas acima não são o suficiente para retratar a experiência e o engrandecimento que uma visita a ela pode trazer. Além de ser uma das primeiras propriedades cafeeiras construídas na região, ela também foi palco da visita de D. Pedro I durante a sua expedição para São Paulo, próximo a data da declaração da Independência em 1822. Conhece-la de perto é conhecer a história do Brasil e do Vale. É poder viver um pouco o período colonial e seus traços sociais, culturais, políticos e econômicos. Ela é um memorial importante e significativo que nos leva a reflexão da nossa história e nos faz entender algumas características da sociedade brasileira atual. Dessa forma, motivados por sua imensurável importância, é o nosso dever preserva-la e torna-la cada vez mais acessível, assim como outras fazendas e patrimônios históricos localizados no riquíssimo Vale do Paraíba e no Brasil.


Larissa Gabrielle


Possui graduação em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (2018). Atualmente integrante do Instituto de Estudos Valeparaibano.




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Com sede na cidade de Lorena (SP), o Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV) é uma associação sem fins econômicos, de caráter cultural, com atuação voltada ao desenvolvimento harmônico do Vale do Paraíba e à preservação de seu patrimônio histórico, cultural e ambiental. Fundado em 1973, o IEV atua em diferentes frentes, promovendo cursos, palestras, conferências, seminários, simpósios, debates e premiações, entre outros projetos, com o objetivo de estudar a realidade vale-paraibana e incentivar a produção e a pesquisa sobre o Vale do Paraíba.

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