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Valdomiro da Silveira - Leréias e a tragédia caipira

Desde os primórdios da literatura e dos meus primeiros gostos emergidos durante a adolescência, a tragédia, sempre foi o meu tipo literário preferido. Quando mais jovem, ainda no limiar entre a adolescência e a vida de jovem adulto, conheci e me aprofundei nas mais trágicas histórias literárias. A tragédia de Édipo, de Midas e até mesmo o triste fim de Herácles, ainda nas clássicas tragédias gregas, passando pela triste e delirante figura de Dom Quixote, ao triste Corcunda de Notre Dame, a Jean Valjean de Os Miseráveis e os Irmãos Karamazov.

De certo modo, pude me acostumar e criar gosto pelo trágico, pelas histórias que tinham a ousadia de não cair no lugar comum do final feliz.

Porém, após alguns anos e ter devorado os grandes clássicos, me senti órfão. Abandonado diante do niilismo da imensidão do universo, até a semana passada, quando entrei em contato pela primeira vez com a obra de Valdomiro Silveira, através da incrível adaptação de alguns contos da obra Leréias – Histórias Contadas por Eles Mesmos.

Os três contos adaptados, me transmitiram uma profunda sensação de estranheza, tristeza e porque não certo desespero, principalmente devido a profundidade das personagens e das capacidades estilísticas do autor e da interpretação de Jandir Ferrari.

A obra em si, conta com muitos outros contos, onde Silveira, é capaz de dar voz e lugar de fala as mais complexas tragédias caipiras, de modo que podemos perceber com uma triste e profunda beleza, que a vida no campo, também possui suas mazelas e seus momentos de extrema solidão.

Os três contos teatralizados Na Folha – Larga, Do Palo Aberto e Força escondida, impressionam ao trazer a tona em monólogos as dores que podem se esconder por entre as grotas e grotões dos mares de morros, entre as sombras da Serra da Mantiqueira.

“Na folha – larga” um jovem enamorado, busca coragem para se declarar a sua amada, narrando sua angustia por não saber se o sentimento é recíproco e também a beleza e tristeza que ele nota e admira no cantar do tico tico rei, que traz a ele as dores e as nuances belas do amor. Conforme a narrativa avança, a personagem se declara a sua amada e obtém como resposta que deveria buscar falar com o pai, para adquirir autorização. Inflamado e entristecido pela rejeição, o jovem desiste e some pelo mundo, para saber depois que sua amada definhara após a sua partida e para ele só restara remoer as dores e a angústia da culpa pelo fim, daquela que ele mais amou...

A narrativa do conto “Do Palo Aberto”, traz uma profunda história sobre a sina, o destino e a forma de se relacionar com as dores do acaso. A protagonista, uma mulher, conversando com alguém mais velho, procura explicar sobre sua situação de estar agora prostituindo-se. De uma vida devotada a sua família e a igreja, aguardando o amor, começa o a encontra – lo quando um dos compadres de seu pai passa a corteja-la. Nas missas, nas quermesses, o romance dos dois passam a ser construído de modo que criamos a expectativa de que nos próximos dias, o jovem va pedir a mão dela em casamento.

Porém, a tragédia acontece, quando um homem se hospeda na casa de seu pai e no calar da noite, a estupra. O episódio é narrado com maestria pelo autor, temos em cena o terror e a angustia de ser submetida a tão terrível ato de barbárie. No dia seguinte, sem saber o que fazer a mulher foge, arranjando abrigo em casas abandonadas e trabalhos em casas de família.

Por fim, após outros episódios de violência e estupro, a jovem se ve a aceitar sua sina, se prostituindo como caminho para se manter e existir, mais uma vez a forma magistral como Valdomiro Silveira narra esses episódios, fazendo com que você se sinta toda a repulsa, angustia e dor da vítima sem que sejam necessários explicitar a cena.

Um dos elementos interessantes desse conto, reside no fato de dar voz as mulheres em estado vulnerável, extraindo dela toda a dor e sofrimento pela sua condição e sina, lembrando que a sina de se tornar prostituta, aceitando essas mazelas impostas pela vida, são os movimentos que norteiam a história.

Por fim, um ultimo texto adaptado é um brilhante retrato da esquizofrenia e psicose de um caboclo. Contando sua história de modo taciturno sua história, em “Força Escondida”, percebemos que nem sempre a vida no campo é bela e cheia de alegrias. Um caboclo, assolado por uma profunda seriedade, narra a noite em que ele na escuridão começa a ter sombrios pensamentos, quando o candeeiro apaga e ele acende uma nova chama, é dominado por pensamentos que o levam a cometer o maior dos desatinos.

Em um acesso, um surto, movido por uma força sombria que o leva pra frente em seu pensamento mórbido, ele retira a faca da bainha e crava no “sangradouro” da esposa, a matando. A partir disso a narrativa sombria, se envolve em uma dureza e crueza, quando o individuo se entrega e não sabe explicar as motivações do crime.

Tal conto mexe com o intimo brio humano, quanta escuridão, dor e sofrimento contidos em um coração são necessários para trazer a tona a loucura depressiva da esquizofrenia de tal homem, condenado a viver com a eterna lembrança e culpa, por infligir a morte a sua amada companheira.

Tais contos e a magistral interpretação de Jandir Ferrari, traduzem um profundo sentimento diante da própria angustia da existência, de certo modo a escrita de Valdomiro Silveira, beira o existencialismo, o niilismo, a nadidade filosófica, sendo uma prosa profunda e que da voz ao caipira, de uma maneiro muito real e crua, onde a beleza da natureza e do modo de vida do campo se contrasta com a profunda melancolia e angustia que a vida também pode adquirir no interior.

Essa é a tragédia caipira, uma abordagem que torna única, quando consegue apresentar pontos pouco explorados da dinâmica da vida do interior, conseguindo construir um quadro da identidade do caipira valeparaibano muito mais real e densa, onde existe espaço pra beleza, para a dor e para a angústia.


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Abraão Cesar dos Santos Francisco


Licenciado em História pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo e aluno do curso de Filosofia na mesma instituição.  Foi professor temporário na rede publica do estado de SP. Membro do IEV desde 2018 e membro da atual diretoria do Instituto, pesquisador e autor em construção.

Seus interesses acadêmicos, giram em torna da história dos costumes e da política do Vale do Paraíba, bem como seus personagens. Também busca compreender com tons filosóficos o modo de vida e as questões que movimentam a região.




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